BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) – Sergio Jaramillo, 57, já havia visto a barbárie da guerra antes, em seu próprio país, a Colômbia.

De 2012 a 2016, durante a Presidência de Juan Manuel Santos, ele liderou o Alto Comissariado para a Paz, órgão que negociou com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) o acordo do Estado com a guerrilha colombiana. A atuação de Jaramillo ajudou o hoje ex-presidente a ganhar o Nobel da Paz.

Hoje, ele comanda a iniciativa Aguenta, Ucrânia, campanha que reúne artistas, políticos e intelectuais de vários países da América Latina para pedir paz no conflito que se desenrola no Leste Europeu.

No último dia 27 de junho, Jaramillo, o escritor Héctor Abad Faciolince e a jornalista Catalina Gómez, todos os quais colombianos, além da escritora ucraniana Victoria Amelina, estavam em um restaurante na cidade de Kramatorsk após visitarem diversas regiões afetadas pela guerra promovida pela Rússia.

Embora a pizzaria Ria fosse um alvo civil –e, assim, atacá-la seria um crime de guerra–, Moscou disparou um míssil contra o local. Amelina e outras dez pessoas foram mortas, e mais de 60 ficaram feridas na ação, incluindo Jaramillo, atingido na perna. “A Rússia se tornou um Estado terrorista, e a América Latina, se tiver valores, precisa protestar”, afirma ele, de Bogotá, onde conversou com a reportagem.

PERGUNTA – O sr. encabeça a bandeira da campanha Aguenta, Ucrânia e foi ao país levar a mensagem de políticos e artistas latino-americanos. O que viu por lá lhe deu qual sensação?

SERGIO JARAMILLO – A de que a invasão russa só vai acabar quando o Kremlin perceber que todas as portas estão fechadas. Mas o que Brasil e África do Sul estão fazendo é abrir uma porta muito grande, dando espaço para [o líder russo Vladimir] Putin. Isso o convence de que não está sozinho, reforça suas teorias delirantes de que o problema é o Ocidente, não sua invasão criminosa, prolonga a guerra e torna a paz impossível.

Qual a diferença entre falar da guerra de longe e vê-la in loco?

S. J. – Não se pode generalizar, mas de modo geral tenho a ideia de que se dá um passo muito rápido da guerra para as questões geopolíticas, e talvez devêssemos dar mais atenção às pessoas que estão sofrendo.

O governo Lula erra em relação à guerra?

S. J. – O PT deveria ter mais simpatia pelas vítimas ucranianas. Impossível que não saibam disso, [a ex-presidente] Dilma Rousseff e outros foram torturados. Concordo quando Lula defende um mundo multipolar, mas a política externa que ele promove vem contradizendo essa crença. Afinal, o que Putin está fazendo é o contrário: ele está impondo um mundo em que quem tem mais força domina tudo.

Além de o senhor ter ficado ferido na Ucrânia, perdeu uma amiga, a escritora Victoria Amelina.

S. J. – Foi terrível, e é em nome dela que peço ao governo do Brasil que revise sua política em relação à Rússia e à invasão, porque a única coisa que está conseguindo é prolongar a guerra e afastar a paz.

O que o senhor foi fazer no Donbass, no leste da Ucrânia, com Amelina, Faciolince e Gómez?

S. J. – Fomos coletar depoimentos de pessoas para a nossa campanha Aguenta, Ucrânia. Victoria foi a nossa guia. Começamos em Kharkiv, onde uma amiga dela nos contou como, após a invasão russa, especialmente brutal ali, ela decidiu ficar e se tornar voluntária para ajudar pessoas e animais. A guerra deixou centenas, talvez milhares, de cães vagando pelas ruas e nos campos do país, procurando desesperadamente seus donos, que haviam abandonado a cidade.

Em Izium, ela nos levou ao jardim de uma casa muito modesta, onde encontrou enterrado sob uma cerejeira o diário de Volodimir Vakulenko, poeta que os russos assassinaram. Ele escreveu um diário do primeiro mês da invasão, e Victoria o encontrou e o divulgou na feira do livro de Kiev.

E o que os levou a essa pizzaria em Kramatorsk?

S. J. – Passamos o dia conversando com pessoas nos arredores da cidade. Depois, fomos ao restaurante favorito de Victoria, a pizzaria Ria, um lugar animado em que jornalistas internacionais costumavam se reunir. Estávamos relaxados, fazendo piada sobre o fato de termos de beber cerveja sem álcool. Victoria estava à minha esquerda quando o míssil explodiu. Eu tinha abaixado a cabeça para pegar um guardanapo. Ela recebeu um golpe muito forte na parte de trás da cabeça de algum objeto que voou.

O que sentiram naquele momento?

S. J. – Uma inusitada serenidade. Tudo gira ao redor, o tempo parece parar, e a mente tenta assimilar o que está acontecendo. Imediatamente pensamos nos outros… Héctor e Catalina saíram ilesos, mas quando virei a cabeça vi Victoria ao meu lado, imóvel, como uma estátua. Verificamos seu pulso, pedimos que chamassem uma ambulância e, quando os paramédicos chegaram para prestar os primeiros socorros, ficou claro que seu estado era muito, muito delicado. Fomos atrás dela no hospital, que estava cheio de feridos. Quase todas as pessoas na pizzaria ficaram feridas de alguma forma, eu sofri apenas um golpe forte na coxa que deixou um hematoma e um ferimento superficial que sangrava bastante no cotovelo. Aqueles que estavam sentados dentro da pizzaria foram os mais atingidos, o teto de concreto caiu sobre eles quando o míssil explodiu. Muitos funcionários jovens morreram.

O sr. já havia vivido algo assim antes?

S. J. – Quando ocorreu o atentado a El Nogal, em Bogotá [em 2003, de autoria das Farc], eu estava jantando nas proximidades e cheguei logo depois ao local. Várias insurgências recorreram ao terrorismo na América Latina, como os Montoneros, que colocaram muitas bombas nos anos 1970 na Argentina, e o Manuel Rodríguez, que fez o mesmo no Chile nos anos 1980. E, claro, conhecemos o terrorismo jihadista do 11 de Setembro e os ataques em Paris. Mas o que a Rússia está fazendo hoje é um nível de barbárie diferente.

Trata-se de uma superpotência e um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU que, em vez de proteger o direito internacional, usa seu poder para atacar sistematicamente civis em toda a Ucrânia. É uma política de terror. No dia seguinte ao enterro de Victoria, mataram dez civis e feriram mais de 40 em um prédio residencial na cidade de Lviv, que foi atingida por mísseis, a centenas de quilômetros da linha de frente. A Rússia se tornou um Estado terrorista, e a América Latina, se tiver valores, precisa protestar.

O sr. liderou as negociações de paz com as Farc. Que balanço faz da experiência?

S. J. – Agridoce. Há coisas que se saíram muito bem, como a desmobilização de guerrilheiros, o desarmamento, a incorporação das Farc ao nosso sistema democrático. O sistema de Justiça Especial para a Paz e as políticas de reparação também deram resultados extraordinários. Desde o Estatuto de Roma não havia acontecido algo assim. Mas a paz na Colômbia depende de muitos outros aspectos, econômicos, sociais e relacionados à presença de outras forças violentas, como cartéis de narcotráfico. O caminho é longo.

RAIO-X | SERGIO JARAMILLO, 57

Liderou de 2012 a 2016 o Alto Comissariado para a Paz, órgão que negociou com as Farc o acordo do Estado colombiano com a guerrilha. Antes, foi vice-ministro de Defesa para política e assuntos estrangeiros (2006-2009) e diretor-executivo do Ideas for Peace Foundation em Bogotá (2000-2003). Estudou filosofia e grego nas universidades de Toronto, Oxford, Cambridge e Heidelberg.